Especialista em psoríase fala dos avanços na compreensão da doença

Última atualização: 06/10/2010

Atualizado em 06/10/2010
 
A psoríase compromete a saúde e a autoestima de pelo menos 5 milhões de brasileiros. Eles sofrem o peso imposto pelo preconceito daqueles que pressupõem que as manchas e descamações na pele típicas da patologia são contagiosas. A doença, embora descrita desde a Antiguidade, foi negligenciada por cientistas e médicos durante muito tempo. Acreditava-se que ela não atingia os órgãos internos. O dermatologista inglês Alan Menter, um dos maiores pesquisadores em psoríase do mundo, esteve no Brasil recentemente para lançar um livro sobre o assunto. À frente do Departamento de Dermatologia da Universidade de Medicina de Baylor (em Dallas, nos Estados Unidos) desde 1992, ele tem pelo menos 200 artigos científicos publicados, além de ser coautor da descoberta do gene da psoríase — trabalho publicado na revista Science na década de 1990. Menter também já foi eleito um dos melhores médicos dos Estados Unidos e é presidente da International Psoriasis Council (IPC). Em entrevista ao Correio, ele confirma que os prejuízos psicológicos e sociais provocados pelo mal são enormes. Para o especialista, a informação é a ferramenta mais importante para minimizar os danos emocionais e sociais causados as vítimas do transtorno.

Na tentativa de minimizar o preconceito sobre o problema, médicos e pacientes de todo o mundo se mobilizam em 26 de outubro, Dia Mundial da Psoríase. Doença inflamatória e crônica da pele, ela se manifesta, na maioria das vezes, por lesões eritematosas róseas ou avermelhadas recobertas por escamas esbranquiçadas. Em alguns casos, as feridas podem atingir apenas os cotovelos, joelhos ou couro cabeludo. Já em outros, espalham-se por toda a pele e unhas. Embora seja pouco comum, existem casos em que as articulações também são afetadas. O mal atinge cerca de 3% da população mundial e pode se manifestar nas diversas fases da vida. Para a maioria das pessoas, no entanto, a psoríase se apresenta antes dos 35 anos de idade. A incidência é a mesma para homens e mulheres.

Em estágio moderado ou grave, a patologia eleva em 24% o risco de infarto, em 45% a chance de acidente vascular cerebral e em 51% a probabilidade de arritmias cardíacas. As variações parecem estar ligadas ao perfil genético, e a ciência ainda busca o mapeamento dos genes que promovem a manifestação de cada tipagem. Medicamentos usados para controlar a pressão arterial e a depressão também são desencadeantes, assim como algumas infecções, principalmente as das vias aéreas superiores.

Para minimizar os danos

Como a psoríase se desenvolve?
Um fator desencadeador desconhecido (antígeno) combina-se com um linfócito chamado célula T, desencadeando a liberação de citoquinas que vão até os linfonodos. Liberadas para a pele em excesso, elas acabam produzindo um ciclo de inflamação, tornando a derme vermelha, espessa e com lesões descamativas, que são as três características principais da psoríase.

Qual o impacto da doença para os pacientes?
A psoríase causa impacto devastador na qualidade de vida dos doentes. Ela chega a ser tão impactante quanto doenças como câncer e insuficiência cardíaca. Muitas vezes, os pacientes se sentem rejeitados ou discriminados em seus ambientes sociais e de trabalho. A doença está intimamente associada a casos de depressão, suicídio e comorbidades frequentes, como problemas de coração, diabetes e obesidade.

A psoríase pode estar relacionada a outros males? Quais são os principais desencadeantes da doença?
Qualquer arranhão, corte, incisão cirúrgica na pele ou até mesmo uma queimadura de sol pode desencadear uma placa de psoríase duas semanas após a cicatrização desse trauma. Isto é conhecido como fenômeno de Koebner. Fatores importantes de estresse, como a perda de um ente querido, insegurança no emprego, brigas com familiares ou uma cirurgia de grande porte podem provocar a psoríase. Ela também pode estar relacionada à doença de Crohn, ao diabetes e, ocasionalmente, a problemas na tireoide e à esclerose múltipla.

A medicina tem avançado na compreensão da doença? Já é possível dizer como o processo da psoríase acontece?
Com certeza. Estamos nos esforçando bastante para compreender cada vez mais esse mal. Hoje, sabemos que é como se o sistema nervoso pudesse produzir citoquinas (substâncias químicas) a partir das inserções dos nervos na pele. A liberação química dessas substâncias desencadeia a psoríase a partir de um episódio de estresse ou ansiedade. Além disso, há a questão genética, havendo uma interação entre todos estes fatores.

Como são os tratamentos convencionais?
Os tratamentos convencionais, com a ciclosporina e o metotrexato, agem reduzindo a liberação das citoquinas na circulação e na pele. Os retinoides desaceleram o aumento na hiperproliferação de células epidérmicas causada pela liberação das citoquinas. No entanto, a ciclosporina só pode ser prescrita por curtos períodos de tempo, devido aos riscos de danos renais e problemas de pressão arterial. Os retinoides não podem ser receitados para mulheres em idade reprodutiva devido à teratogenicidade, ou seja, risco de má-formação congênita. Nos casos moderados a grave, são utilizados medicamentos biológicos. Atualmente, essas drogas funcionam em cerca de 55% a 75% dos pacientes, mas perdem sua eficácia com o tempo.

Quais são as descobertas mais recentes para prevenir, controlar ou eliminar a doença?
Infelizmente, a psoríase é uma doença autoimune e ainda não tem cura. Novas descobertas permitirão entender melhor os fatores desencadeadores para reduzir as exacerbações. A ciência estuda, atualmente, os múltiplos anticorpos monoclonais projetados para interagir com químicos específicos (citocinas) envolvidos na psoríase. Novas moléculas, drogas anti-inflamatórias, inibidores de citocinas — alguns serão ministrados por injeção, outros por via oral — também estão em pesquisa.

Qual a expectativa em relação as essas novas pesquisas?
Elas podem proporcionar um tratamento mais individualizado e possivelmente alcançar períodos mais longos de remissão, com menos efeitos colaterais para pacientes com psoríase moderada a grave pelo resto de suas vidas. Será revolucionário, por exemplo, estabelecer o perfil genético de pacientes para encontrar as drogas corretas para cada um deles.

Quais as novidades já em prática em relação a tratamento?
A principal novidade é um novo medicamento biológico, o UIstekinumab, que tem eficácia em 80% a 90% dos pacientes. Ao contrário da ciclosporina, ele pode ser usado a longo prazo. Outro benefício é a comodidade posológica, pois é administrado somente quatro vezes ao ano por meio de injeção subcutânea. No caso dos outros biológicos já existentes, a injeção deve ser semanal. É importante reconhecer que a psoríase é uma doença crônica. Para as pessoas com as formas moderada e grave da doença (cerca de um em cada cinco pacientes), é necessário o tratamento crônico com um agente sistêmico ou biológico. Isso é fundamental para que esses pacientes permaneçam membros produtivos da sociedade e tenham relacionamentos normais com seus pares e entes queridos. A depressão em pacientes com as formas mais graves de psoríase é frequente, especialmente em indivíduos mais jovens. Por tudo isso, o tratamento correto é tão importante.

Como pesquisador e presidente do IPC, qual a sua linha de ação?
Definitivamente, é aumentar o conhecimento sobre psoríase e usá-lo para instruir médicos a tratar seus pacientes com terapias melhores. Tenho concentrado meu trabalho em duas áreas diferentes. A primeira é dirigida ao desenvolvimento de uma ferramenta efetiva de medição, que servirá para prever a gravidade da doença de um paciente e assim apontar o tratamento adequado. Já conseguimos avançar na identificação dos elementos específicos de psoríase que se correlacionam e acabamos de submeter esse achado ao Journal of Investigative Dermatology. A segunda se refere à conexão de psoríase e as comorbidades cardiovasculares. A pele é a janela para o funcionamento do interior do corpo e a psoríase é indicadora de uma inflamação sistêmica profunda. Iniciamos um estudo clínico com o objetivo de determinar de uma vez por todas a conexão entre psoríase e o índice de massa corporal, um dos principais fatores de risco cardiovascular. Tenho orgulho de dizer que esse trabalho já tem 75% de inscrições. Tenho certeza de que ele fornecerá informações fundamentais para a medicina.
 
Fonte: Correio Brasiliense, entrevista por Márcia Neri

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